ESTA NOITE O CHORO EM MIM MORA



Esta noite, o choro, em mim mora,
Sendo-me igual, me querer mal, ou me querer bem.
Por amor, sei eu bem, que todo o mundo, chora,
E tristezas, todo o mundo, bem eu sei, que tem.

Choro, sem lágrimas, de dentro para fora,
Sozinho, no meu quarto, sem pensar, que também:
Que por fome, todo o mundo, pobremente chora,
E que por sede, todo o mundo,
 choro tem.

Eu choro, à cruel solidão
, que me devora,
Que sem a procurar, ao meu encontro, vem;
E trás com ela, eu sei lá! Eu sei lá! Ora.

Solidão, que em mim anda, num vaivém, 

Correndo, como doida, que até me apavora;
Solidão, que não a desejo a ninguém.


António Almeida