NÃO LAMENTES, Ó MULHER, A TUA VIDA


Não lamentes, ó mulher, a tua vida;
Mulher, tem sido na descriminação, a culpada;
Forma mal os filhos, não quer ser julgada,
E dos erros do passado está distraída:

Mulher foi menina, e menina a casa lida;
Menino por menina, na casa não alcança a enxada;
Mulher ensina, mulher ser, restrita, esforçada,
Homem virtuoso, falocrata, não margarida:


E essa gente famosa, que muito fala, sem medida,
Entre outras mil vaidosas, que falam muito, e não fazem nada,
Formeis bons homens hoje, para amanhã não ser a partida.

Toda a mulher é, não fiques duvidosa, acusada,
Deveria a seu bem, incutir nos filhos os defeitos, destemida,
Mas induz-os com mais vícios. E, reclama da asneirada.


autor
António Almeida

COMO AMO-TE?... VOU-TE DIZER


Como amo-te?... Vou-te dizer, 
A feição. Em poesia, com toda a paixão. 
Abrandando mais o ritmo do coração, 
Num fervor de loucura a conter. 

 Amo-te!... Como eu fogo, ser, 
Que flameja. Sem saber, sem explicação. 
Correndo vales e serras; uma vastidão, 
Que ninguém consegue deter. 

Amo-te! Com ânsia, desejo, prazer, 
De chama viva e mais vida; um clarão. 
Que arde sem se ver a arder. 

Fala - não sente. Amor, é ter, sem obsessão,
Anda dentro do coração de toda gente; é querer. 
Amo-te! Sem precisares de saber a razão. 

autor
 António Almeida

Apenas, 
Quem sabe plantar,
Árvores grandes ou pequenas, 
Das que se plantam ás centenas, 
As sabem alimentar.

autor
António Almeida

Talvez esta minha grande dor, 
Não seja mais do que um certo amor néscio. 
Com palavras não adormecidas, deixadas no interior, 
Subestimando os meus sentimentos, criando um temor, 
Que se vai enraizado, neste doloroso silêncio.


autor
António Almeida

Meu olhar de procurar-te anda ao redor;
Minha mente, por bem querer-te, perdida;
Como é estranha a vida de quem não tem dor,
Na certeza de que até vivem bem sem amor,
E eu aqui, demente... oh! Vida.


autor
António Almeida

Meu mundo, 
São os olhares, que a mim se unem. 
Os demais, são as lágrimas que me caem... 
O pago, por triste meu, engano profundo. 

autor 
António Almeida


CULTAS MENTES EM DECADÊNCIAS


Cultas mentes em decadências, 
Reduzis, nos vossos olhares, a inveja; 
Observai-a, observai-a, em peleja;
Que só traz ódios, e violências:

Podeis, viver, das influências,
Dos que cobiçam, em que a inveja reja;
Notai-a, notai-a, que assim bem seja;
Os vossos males, vossas demências:

Pobres mentes, pobres inteligências,
Consumidas de ciúme, servida em bandeja,
Cheirando a vinolências, a deficiências:

Que em sussurros, a vós, vos fareja,
Sem misericórdias, sem resplandecências,
E vos leva a que vós caiais numa enseja.

autor
António Almeida
Enquanto os olhares se lançam, 
As bocas bafejam-se em murmúrios… 
Os corpos atordoados avançam, 
E em tornado dançam, 
Sem tugúrios...

autor 
António Almeida

A VIDA É TEMPO QUE PASSA 
E NÃO SE SENTE PASSAR


A vida é, tempo que passa, e não se sente passar; 
É, desejo de querer, possuído de vontade, e não querer; 
É, ânsia constante, náusea, difícil de se conter; 
É, animo, que desanima, sem se resignar; 

É, lutar, até onde não mais se poder, e nada lutar; 
É, querer mais, mais que mais querer mais, e nada ter;
É, consequência da incerteza, ganhar, perder;
É, entusiasmado, desanimado, se andar;

É, mistério, cuja chave a desvendar é, continuar;
Construída de sonhos, e realizada de incertezas, ser,
Prosseguindo o que começou, até ao fim chegar.

E, com justa causa própria, anda assim, até morrer;
Tão leviana, que com o tempo, só nos resta conformar,
Sendo o mesmo que dizer: não há nada a fazer.

autor
António Almeida
Se, com quatro letras pequenas, 
Se, escreve a linda palavra amor. 
É com três malditas letras apenas, 
Entre tantas outras ás centenas, 
Que se escreve a palavra dor. 

autor 
António Almeida

LONGE ESTÁ LONGE FICA QUEM AMO


Longe está, longe fica, quem amo,
Desde a hora, em que seu amor, foi meu.
Nos meus dias, saudades, não reclamo,
Apesar da poesia, murmurar, mais eu.

E lágrimas, na face, não derramo,
Por bem sentir, que meu coração, é seu.
Submisso, ao meu fado, que não recamo,
Vivo, esta paixão, que o amor me deu.

O vento, agita-me, a mim, eu ramo,
Dançando as baladas, de quem por amor sofreu;
Tragédias cruéis, que eu contente, não clamo.

Sonhando com o amor, que me apareceu,
E tão cego me fez, me faz, desejo, e não chamo;
Vivendo feliz, com o que a vida me ofereceu.

autor
António Almeida

Abre os olhos, pára de sonhar,
Corre pela estrada, mesmo em desalinho.
Beija o sol, a terra, o mar, o ar,
As pedras que te vão magoar,
E segue o caminho.

autor
António Almeida

Entre os amores, que eu já tive, 
Amores, de uma grande cegueira. 
Só o mais misterioso em mim mantive, 
Porque me levou a lugares a onde eu não estive, 
Nem sentidos da mesma maneira. 

autor
 António Almeida

OH! AMOR... A ONDE É QUE TU MORAS?!


Oh! Amor... A onde é que tu moras?!
Que de suspiros em vão, já ando eu fatigado.
Caminhando por atalhos, outros caminhos, horas,
Sustentando o morbo, de um mal meu desgraçado.

Morre o dia, nasce mais outro, auroras,
Claridade que precede, o novo nascer, deslumbrado.
Sobre os montes pálidos, o sol nasce, sem demoras,
Da baça tristeza de um céu, que até já foi estrelado.

E assim ando eu, louco, cego, mísero, ás noras, 
Umas vezes mais apressado, outras vezes mais demorado,
Entre o tempo e o espaço, em paixões avassaladoras.

Que assim nascem, assim partem, assim cansado,
Ainda te procuro, pelas ânsias, em mim, ensurdecedoras,
Dando-me as sombras, por necessidade de ser amado.

autor
António Almeida